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Entre o conflito e a oportunidade: o ensaio de uma terceira via em 2026

A campanha eleitoral de 2026 ainda não começou oficialmente. Mas, na prática, ela já ensaia seus primeiros movimentos — e, como costuma ocorrer na política brasileira, não a partir de programas ou propostas, mas de conflitos.

O episódio que catalisou esse movimento girou em torno de críticas públicas feitas por Romeu Zema ao papel desempenhado pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos anos. Zema questionou o que classificou como uma atuação expansiva da Corte — especialmente em decisões com forte impacto político — sugerindo que o tribunal teria ultrapassado os limites tradicionais de sua função.

A reação veio de forma direta. Gilmar Mendes rebateu as declarações, defendendo a atuação do Supremo como necessária à preservação da ordem democrática e criticando o que considerou uma leitura simplificadora — ou oportunista — do papel institucional do tribunal. O debate, portanto, não foi técnico no sentido estrito: foi político em sua essência, porque tratou de poder, limites institucionais e legitimidade.

O embate que, à primeira vista, pareceu episódico, examinado com atenção, revela deslocamentos mais profundos. Não se trata apenas de uma divergência institucional. Trata-se da entrada em cena de um discurso — e, mais do que isso, de uma estratégia.

Ao tensionar diretamente o Supremo, Zema não apenas vocaliza um desconforto que já circula em parcelas expressivas da sociedade. Ele se posiciona. E ao se posicionar, se insere num campo político que ainda está em disputa: o da crítica ao sistema sem adesão explícita ao bolsonarismo clássico.

Esse movimento é tudo menos trivial.

A polarização como estrutura — e como limite

O cenário político brasileiro, desde pelo menos 2018, organiza-se em torno de dois polos. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), que representa uma coalizão ampla do campo progressista, ancorada em defesa do regime democrático, em políticas sociais e de redistribuição de renda na reconstrução institucional pós-crise. De outro, o campo da extrema direita, cuja expressão mais direta segue vinculada à família Bolsonaro — aqui simbolizada por seu primogênito Flávio Bolsonaro.

Essa polarização não é apenas eleitoral. Ela estrutura percepções, identidades políticas e até formas de interpretar a realidade.

Mas toda estrutura, quando se torna rígida, também cria tensões internas.

Há, hoje, um contingente crescente de eleitores que não se reconhece integralmente em nenhum dos dois polos. Não se trata necessariamente de um “centro” clássico, mas de um espaço difuso, marcado por insatisfação, cansaço e, em muitos casos, desconfiança em relação às instituições.

O embate entre Romeu Zema e Gilmar Mendes não ocorre no vazio. Ele dialoga com uma percepção mais ampla, já presente no debate político, de que a eleição de 2026 será novamente decidida por um eleitorado menos ideológico e mais pragmático — esse “centro difuso” que, historicamente, define o resultado das disputas presidenciais no Brasil. Não por acaso, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro parecem, cada um à sua maneira, buscar esse mesmo espaço: Lula reiterando a narrativa de reconstrução, união nacional, forte inserção internacional, enquanto Flávio tenta suavizar a imagem do campo bolsonarista e aproximá-lo de uma direita mais aceitável ao eleitor mediano. É nesse terreno já congestionado que Zema tenta se inserir — não como continuidade, mas como alternativa.

O STF como eixo de disputa política

O protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) na vida política brasileira, especialmente após os eventos de 8 de janeiro de 2023, transformou a Corte em mais do que um árbitro institucional. Tornou-se também um ator político — ainda que essa não seja, formalmente, sua função.

Esse deslocamento tem consequências.

Por um lado, consolidou o STF como garantidor da ordem democrática em momentos críticos. Por outro, expôs a instituição a níveis inéditos de contestação pública.

É nesse ponto que a estratégia de Zema encontra ressonância.

Ao confrontar um ministro como Gilmar Mendes, ele não está apenas criticando uma decisão ou uma posição específica. Está dialogando com uma percepção mais ampla — a de que o equilíbrio entre os poderes teria sido tensionado além do aceitável.

Independentemente do mérito dessa avaliação, o fato é que ela existe. E, politicamente, isso basta.

A tentativa de ocupar o espaço entre dois mundos

O movimento de Zema sugere uma tentativa clara: ocupar um espaço intermediário entre o lulismo e o bolsonarismo.

Não é uma posição simples.

Para diferenciar-se de Lula, é preciso criticar o governo, suas políticas e, eventualmente, o sistema que o sustenta. Mas, para não se confundir com Flávio Bolsonaro e o campo que ele representa, é necessário evitar a polarização e o radicalismo que marcou os últimos anos.

Essa equação é delicada — e raramente bem-sucedida na história recente do país. Ainda assim, ela volta à cena.

E volta não por acaso, mas porque a própria polarização começa a mostrar sinais de desgaste.

Uma avenida aberta — mas longe de consolidada

O episódio em questão pode, de fato, ter aberto uma “avenida” para uma candidatura alternativa. Mas é preciso cautela com essa imagem.

A política brasileira não costuma recompensar facilmente projetos que se colocam entre polos já consolidados. A força gravitacional da polarização é intensa — ela atrai, redefine e, muitas vezes, absorve qualquer tentativa de ruptura.

Para que essa avenida se torne um caminho real, algumas condições precisam se materializar.

Zema — ou qualquer outro nome que tente ocupar esse espaço — precisará ganhar densidade nacional, construir alianças e, sobretudo, oferecer mais do que crítica: uma narrativa consistente de país. Além disso, será necessário que o próprio eleitorado esteja disposto a sair da lógica binária que tem organizado suas escolhas nos últimos anos.

Nada disso está dado.

O que já está em curso

Ainda assim, algo já começou.

O debate deixou de ser apenas sobre governo e oposição. Passa, aos poucos, a incorporar uma terceira pergunta: há espaço para algo diferente?

O confronto entre Zema e Gilmar Mendes não responde a essa questão. Mas a coloca.

E, ao colocá-la, talvez marque o início de uma fase menos visível — porém decisiva — da disputa de 2026.

Porque, antes das candidaturas, vêm os movimentos.

E, antes dos movimentos, vêm os sinais.

Este foi um deles.