Desta vez, dirigindo-se ao presidente Lula de forma direta, Javier Milei voltou a chamar Lula de “ladrão”, “corrupto” e “presidiário” e disse que “pior do que chamar Lula de ladrão é que o ladrão tenha roubado”. Também acusou o presidente brasileiro de “ter investido um bilhão de dólares” na campanha presidencial argentina de 2023, afirmou que as suas críticas a Lula são “em defesa do povo brasileiro” e que a prisão de Bolsonaro foi “teledirigida por Lula”.
Os novos ataques acontecem quando o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, estava a ponto de retornar a Buenos Aires. Quando as tensões diplomáticas pareciam afrouxar, o presidente argentino elevou o tom das declarações feitas no sábado (25), durante o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, em São Paulo. Na noite deste domingo (2), reforçou as acusações e os adjetivos dirigidos a Lula.
“Eu menti?”, perguntou Milei, para, na sequência, disparar: “É ladrão! É ladrão! É um ladrão, é um corrupto. Foi condenado (…) Foi preso. Portanto, também presidiário. E o libertaram por uma falha administrativa do procedimento; não por ser inocente. Portanto, é ladrão, é corrupto”, acusou Milei numa entrevista ao canal LN+, gravada neste domingo (2) na Casa Rosada, sede do governo argentino.
Perguntado se a forma de se referir ao presidente brasileiro não era “agressiva”, Milei respondeu que “é muito mais leve chamar de ladrão o ladrão do que o próprio ato de roubar”.
A entrevista foi exibida na noite deste domingo, quando o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, já tinha a indicação do presidente Lula de retornar a Buenos Aires, depois de ser chamado a consultas, há uma semana, a Brasília. Na linguagem diplomática, uma “chamada a consultas” traduz-se num elevado descontentamento de um país com outro, sinalizando uma grave crise nas relações bilaterais, a partir de uma atitude considerada hostil.
Porém, uma semana depois, Milei não apenas reforça os ataques como também cita o presidente Lula pelo nome. Se, no lançamento da candidatura do seu aliado regional, Flávio Bolsonaro, Milei se referiu a Lula como “ladrão” e “presidiário”, sem mencionar o nome do presidente brasileiro, agora, a alusão tornou-se ofensa com nome próprio.
“Eu respondo com a verdade ao senhor Lula que se sente ofendido se o chamo de “chorro” (gíria argentina para “ladrão”), de ladrão. Mas é um ladrão! Quando digo que é um presidiário, é porque foi presidiário e só saiu por um recurso administrativo; não por ser inocente”, insistiu Milei.
Um bilhão de dólares
O presidente argentino replicou uma acusação, sem provas, de Eduardo Bolsonaro de que Lula investiu um bilhão de dólares na campanha presidencial argentina de 2023 para apoiar o candidato Sergio Massa, que disputava o segundo turno contra Milei.
“Eduardo Bolsonaro contou que o senhor Lula pôs um bilhão de dólares na Argentina na campanha de Massa para me atacar. Além disso, (Lula) pôs um grupo de assessores brasileiros (na campanha de Massa). Então, a esses que me acusam de interferência política digo que, se há alguém que interfere politicamente na região, é Lula, contaminando, com as ideias imundas do socialismo, todos os lugares”, acusou Milei.
De forma cada vez mais enfática e direta, Milei tem atacado Lula desde a campanha eleitoral argentina de 2023. Há uma semana, ultrapassou um limite não apenas por chamar Lula de “ladrão” e de “presidiário” como por fazê-lo em pleno território brasileiro. Não há precedentes na história de um presidente que insulte o outro no país do vizinho.
Apesar de ter atacado Lula primeiro, Milei inverteu a acusação, dizendo que respondeu aos insultos de Lula.
“Ficam zangados porque eu disse algo a Lula, que é a verdade, mas omitem os insultos de Lula e dos seus ministros”, retrucou Milei.
Aos “brasileiros de bem”
Na quinta-feira passada (30), Javier Milei emitiu um decreto que modifica a atual Lei de Migrações, estabelecendo novas penas de proibição para entrada na Argentina e para o cancelamento de residência de estrangeiros, com a sua consequente expulsão em casos de mensagens que incitarem ao ódio, à violência contra o povo argentino e que ultrajarem os símbolos pátrios.
Constitucionalistas e opositores advertiram que, se o Brasil tivesse um decreto semelhante, Milei não poderia mais entrar no território brasileiro. Indagado se a atitude de Milei, ao criticar o presidente Lula (representante do Poder Executivo do Brasil), não seria equivalente, o presidente argentino teve uma interpretação própria, insultando novamente Lula e acusando-o de dirigir o ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, a condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
“Não é a mesma coisa porque eu fui ao Brasil, mas não ataquei os brasileiros. Fui em defesa dos brasileiros de bem. Eu falei sobre Lula, o corrupto, o ladrão, o presidiário. E falei do juiz que mete preso pessoas com as quais não comunga ideologicamente, que faz uma perseguição teledirigida por Lula”, diferenciou Milei, em tom exaltado, ignorando que a maioria dos brasileiros elegeu Lula.
Questionado se não atacava Lula para contentar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Milei negou essa hipótese.
“Eu faço isso porque sou um defensor das ideias da liberdade”, defendeu.
Campanha anti-Argentina
No dia seguinte aos ataques de Milei a Lula, o presidente argentino acusou o governo brasileiro de impulsionar uma campanha “anti-Argentina” na qual os argentinos eram acusados de racismo. O presidente argentino disse que 25% dos recursos (financeiros) saíram do governo do Brasil” e que, dessa “conspiração anti- Argentina”, teriam participado também o governo do México, dirigido por Claudia Sheinbaum, de esquerda, e o Partido Democrata dos Estados Unidos, opositor a Donald Trump.
Agora, Milei redobrou a acusação e ainda incluiu a Espanha, governada pelo primeiro-ministro de esquerda, Pedro Sánchez.
“Toda a campanha contra a Argentina foi motorizada pelo Brasil”, acusou Milei. “Com dinheiro para ‘influencers’, atores e outros. Foi o Brasil. O Brasil em primeiro lugar. Em segundo lugar, o México. Em terceiro lugar, os Estados Unidos, o Partido Democrata. E a Espanha de Pedro Sánchez. Usaram a estrutura do Mundial (de futebol) para dizerem essa barbaridade de racismo”, apontou Milei, dizendo que os envolvidos depois viajam à Argentina e usam os serviços públicos do país.
“São os que vêm para cá para fazer terrorismo. Gente que vem de fora, usa os serviços da Argentina e que se dedica a uma campanha anti-Argentina”, sugerindo uma conspiração internacional.
Milei se baseia num balanço da empresa Monitor Digital, entre dezembro de 2022 e julho de 2026, sobre países estrangeiros que mais publicam sobre a Argentina nas redes sociais. Em momento nenhum, o estudo menciona que se tratam de mensagens de ódio nem que, por trás, haja governos nem que tenham sido apenas durante o recente campeonato mundial de futebol. Apenas menciona os países de origem das conversas.
A lista é liderada pelo Brasil, com 22%, seguido por México (15%), Estados Unidos (13%), Espanha (11%), França e Reino Unido (5% cada), Nigéria e Colômbia (4% cada), Chile, Índia e Indonésia (3% cada) e Peru (2%).
O presidente argentino confirmou que é contra estrangeiros usarem os hospitais públicos argentinos e estudarem gratuitamente na Argentina.
“Não somos contra a imigração. Este é um país formado por imigrantes. O problema é que, se temos um estado de bem-estar, todos pagam. Se alguém de fora usar os seus serviços, você está pagando a conta do outro. Isso não está bem”, criticou.