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Tarifaço: ex-OMC vê “miopia” do Brasil e teme que eleição ofusque prejuízos

O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, anunciado nesta quarta-feira (15), tem como pano de fundo uma profunda diferença de expectativas entre os dois países nas negociações comerciais. É o que avalia Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), ao WW.

Segundo Azevêdo, os Estados Unidos esperavam que o Brasil adotasse uma postura semelhante à de outros parceiros comerciais, reconhecendo o valor estratégico do mercado americano para além dos números financeiros.

“Os Estados Unidos esperavam que o Brasil se comportasse um pouco como os outros parceiros comerciais se comportaram, dando valor ao mercado americano”, afirmou.

Expectativas distintas nas negociações

A visão americana, de acordo com Azevêdo, era a de que o Brasil deveria fazer concessões unilaterais, enquanto os EUA, em contrapartida, apenas evitariam que a situação piorasse ainda mais.

“A expectativa americana era de que houvesse, francamente, quase que uma capitulação do outro lado”, declarou. Já o Brasil enxergava a negociação de forma mais tradicional, esperando uma troca mútua de concessões — abertura de mercado de um lado e redução de tarifas do outro —, o que não correspondia ao que os americanos esperavam.

Azevêdo destacou ainda um componente político que, na sua avaliação, agravou o cenário.

Segundo ele, percebeu-se no Brasil que confrontar os Estados Unidos e invocar o discurso da soberania rendia pontos na opinião pública, especialmente no contexto eleitoral.

“Isso é muito preocupante porque abrir mão do mercado americano voluntariamente, no sentido de não fazer um esforço muito grande para tentar manter, é de uma miopia extraordinária”, alertou.

Riscos para a indústria brasileira

Para Azevêdo, o problema vai além dos números agregados de exportação. Ele ressaltou que os Estados Unidos são o principal destino dos produtos brasileiros de maior valor agregado e de maior sofisticação industrial.

Perder esse mercado, segundo ele, coloca em risco linhas importantes de desenvolvimento tecnológico e científico do país. O especialista também criticou a postura reativa do Brasil na busca por novos acordos comerciais.

“Nós tínhamos que estar negociando esses acordos de toda forma, o tempo inteiro, não tinha que esperar uma catástrofe para poder fazer um movimento dessa natureza”, disse.

Ao final, Azevêdo manifestou preocupação com a possibilidade de que a dimensão eleitoral ofusque todos os prejuízos que podem decorrer do atual estado das relações comerciais entre os dois países.